Gentrificação em Guarulhos

Território, poder público e disputa de sentidos

Conceituando a gentrificação: mais que um fenômeno urbano, um projeto político

A compreensão contemporânea da gentrificação dialoga diretamente com a obra de Henri Lefebvre, especialmente com o conceito de direito à cidade. Para Lefebvre, a cidade não é uma mercadoria, mas uma obra coletiva, produzida socialmente, cujo uso deve prevalecer sobre o valor de troca. A gentrificação, nesse sentido, representa a negação do direito à cidade, pois subordina o espaço urbano à lógica da acumulação capitalista, transformando o território em produto e o habitante em consumidor.

O termo gentrificação foi cunhado pela socióloga britânica Ruth Glass, na década de 1960, para descrever o processo de substituição progressiva de populações populares por grupos de maior renda em bairros centrais de Londres. Desde então, o conceito foi ampliado e aprofundado, deixando de designar apenas uma mudança residencial para expressar um processo estrutural de revalorização do solo urbano, mediado por políticas públicas, investimentos privados e transformações simbólicas do território.

A gentrificação não se resume à chegada de novos moradores ou à verticalização de bairros. Trata-se de um mecanismo de reorganização do espaço urbano segundo a lógica do mercado, no qual áreas historicamente ocupadas por populações trabalhadoras passam a ser reconfiguradas para atender interesses imobiliários, financeiros e de consumo. Esse processo gera aumento do valor da terra, dos aluguéis e do custo de vida, produzindo o que muitos autores chamam de expulsão indireta ou expulsão pelo mercado.

No contexto brasileiro, a gentrificação assume características próprias. Ela ocorre, muitas vezes, não pela substituição direta da população, mas pela perda gradual das condições de permanência, combinando informalidade fundiária, precariedade dos serviços públicos, seletividade dos investimentos urbanos e mercantilização de espaços que originalmente tinham função social. Assim, a gentrificação se articula à segregação socioespacial histórica das cidades brasileiras, aprofundando desigualdades.

Guarulhos, enquanto segundo maior município do estado de São Paulo e parte estratégica da Região Metropolitana, oferece um campo exemplar para compreender esse processo. Ao contrário de cidades marcadas por arranha-céus e centralidades clássicas, Guarulhos cresce por meio de condomínios populosos, bairros verticalizados de média densidade e requalificação seletiva de áreas públicas, criando uma gentrificação menos visível, porém não menos profunda.

Guarulhos: crescimento urbano, localização estratégica e desigualdade territorial

A leitura crítica desse processo no Brasil encontra forte respaldo nas análises de Ermínia Maricato, que demonstra como a urbanização brasileira foi historicamente conduzida pela exclusão. Para a autora, o crescimento das cidades ocorre de forma profundamente desigual, no qual o Estado investe seletivamente, valorizando determinadas áreas enquanto empurra a população trabalhadora para a informalidade, para a periferia ou para territórios ambientalmente frágeis. A gentrificação, nesse contexto, não é uma distorção do planejamento urbano, mas parte constitutiva dele.

O Município de Guarulhos ocupa uma posição singular no território metropolitano. Sede do maior aeroporto do país, atravessada por rodovias estruturantes como a Presidente Dutra e a Fernão Dias, a cidade funciona como elo entre a capital paulista, o Vale do Paraíba e o interior do estado. Essa localização estratégica impulsionou seu crescimento econômico e populacional, mas também intensificou disputas pelo uso do solo.

Historicamente, o município recebeu grandes contingentes de trabalhadores atraídos pela industrialização e pela oferta de empregos logísticos e de serviços. Contudo, esse crescimento não foi acompanhado por uma política habitacional capaz de garantir acesso universal à moradia formal. O resultado foi a expansão de favelas, loteamentos irregulares e ocupações em áreas ambientalmente frágeis, ao lado de bairros planejados e condomínios fechados.

Nas últimas décadas, observa-se uma mudança no padrão de urbanização: menos expansão horizontal periférica e mais adensamento seletivo, com forte atuação do mercado imobiliário. Esse movimento não elimina a informalidade, mas a reorganiza. Áreas antes consideradas “marginais” passam a ser vistas como oportunidades de valorização, especialmente quando contam com infraestrutura, acesso viário e proximidade a centralidades.

Área com alta densidade demográfica.

É nesse contexto que a gentrificação em Guarulhos se manifesta não como um evento abrupto, mas como um processo gradual de redefinição do território, no qual o poder público exerce papel central ao orientar investimentos, conceder licenças, redefinir usos e ceder áreas públicas para exploração privada.

O bairro do Cecap: entre a função social e a mercantilização do espaço

O Cecap ocupa uma posição estratégica singular em Guarulhos. Localizado em uma área de transição, o bairro conecta regiões mais centrais a áreas periféricas, funcionando como corredor urbano e simbólico entre diferentes realidades sociais. Além disso, parte significativa de seu território está vinculada à CDHU, criada com a finalidade de garantir uso social, comunitário e habitacional, e não a maximização do lucro.

Originalmente, os conjuntos do Cecap expressavam uma concepção de cidade baseada na vida coletiva, com espaços amplos, áreas verdes, equipamentos públicos e convivência comunitária. O desenho urbano favorecia encontros, circulação a pé e apropriação dos espaços comuns. Contudo, nas últimas décadas, essa lógica vem sendo tensionada.

A prefeitura, ao ceder áreas públicas e terrenos vinculados à função social para licitações de empresas, construtoras e eventos privados, contribui para uma reconfiguração do sentido do bairro. Espaços antes destinados à convivência, ao lazer cotidiano e à reprodução da vida comunitária passam a ser tratados como ativos econômicos. O território deixa de ser entendido como bem comum e passa a operar como mercadoria.

Esse movimento não se dá apenas no plano material, mas também no simbólico. A presença crescente de empreendimentos privados, serviços voltados ao consumo e eventos de grande escala induz a formação de uma identidade urbana individualista, neoliberal e consumista, em detrimento de vínculos comunitários. O morador deixa de ser sujeito do território para se tornar usuário, cliente ou espectador.

No Cecap, a gentrificação não se expressa necessariamente pela expulsão imediata dos moradores, mas pela descaracterização progressiva do projeto social original, pela pressão sobre os usos do espaço e pela redefinição de prioridades urbanas.

Cultura, meio ambiente e lucro: quando o território vira palco

Um dos exemplos mais recentes desse processo em Guarulhos é a cessão, pelo poder público, de um espaço ambiental sensível, área de nascentes da cidade, para a realização de eventos com artistas do mainstream do sertanejo nacional. Trata-se de um caso que sintetiza a lógica contemporânea da gentrificação: a conversão de bens comuns; natureza, paisagem, cultura em produtos de alto valor econômico e simbólico.

Preparação do terreno para realização do show. Fonte: Guarulhos Web.

Sob o discurso do fomento à cultura, do turismo e da economia criativa, áreas ambientalmente estratégicas são transformadas em palcos de grandes eventos, com alto impacto ambiental, logística intensiva e acesso frequentemente mediado pelo consumo. A pergunta que se impõe é: cultura para quem e a que custo?

O sertanejo mainstream, enquanto indústria cultural altamente lucrativa, está profundamente associado a uma lógica de patrocínio, exclusividade e massificação. Sua inserção em áreas públicas e ambientais não é neutra: ela redefine o uso do espaço, seleciona o público e impõe uma temporalidade voltada ao espetáculo, não à permanência.

O preço do lucro, nesse caso, é múltiplo. É ambiental, ao comprometer áreas de nascentes e ecossistemas urbanos frágeis. É social, ao excluir formas culturais locais, comunitárias e não mercantilizadas. É simbólico, ao reforçar uma cidade-espetáculo, na qual o valor do território é medido por sua capacidade de gerar renda imediata, e não por sua função social, ambiental e coletiva.

Gentrificação silenciosa e resistência possível

Retomando Lefebvre, resistir à gentrificação implica recolocar no centro o uso social do espaço, a vida cotidiana e a centralidade dos habitantes na produção da cidade. Já Maricato alerta que sem enfrentamento da lógica fundiária e do mercado imobiliário, políticas urbanas tendem a reforçar desigualdades, ainda que travestidas de modernização, revitalização ou desenvolvimento cultural.

A gentrificação em Guarulhos não se apresenta, majoritariamente, na forma clássica de remoções em massa ou substituição abrupta de moradores. Ela opera de modo silencioso, por meio da gestão do território, da seletividade dos investimentos e da transformação do espaço público em mercadoria. É uma gentrificação que convive com a informalidade, mas a subordina à lógica do mercado.

No Cecap e em outras áreas estratégicas da cidade, o conflito central não é apenas entre antigo e novo, pobre e rico, mas entre duas concepções de cidade: uma orientada pela função social do território e outra guiada pela rentabilidade. Quando o poder público abdica de seu papel de garantidor do interesse coletivo e atua como facilitador da mercantilização, a gentrificação deixa de ser um efeito colateral e passa a ser um projeto.

No entanto, esse processo não é inevitável. A própria história urbana de Guarulhos revela a força de movimentos sociais, associações de moradores, o trabalho incansável da AAPAH (Associação de Amigos do Patrimônio e Arquivo Histórico), lutas pelo direito à cidade. Reafirmar o caráter público e comunitário dos espaços, proteger áreas ambientais, fortalecer políticas de habitação social e democratizar as decisões urbanas são caminhos possíveis de resistência.

A pergunta final que permanece é profundamente política: que cidade Guarulhos deseja ser? Uma cidade que converte seus territórios em ativos financeiros ou uma cidade que reconhece o valor da vida cotidiana, da memória, do meio ambiente e dos bens comuns? A reflexão sobre essa escolha permite compreender qual papel social se pretende produzir: o do cidadão, sujeito de direitos e participante da vida urbana, ou o do indivíduo reduzido à condição de sujeito de consumo.

REFERÊNCIAS

BALTRUSIS, Nelson. O mercado imobiliário informal em favelas na Região Metropolitana de São Paulo: o caso de Guarulhos. 2000. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas, 2000.

BRASIL 247. Guarulhos: uma grande cidade em tamanho e desafios. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/guarulhos-uma-grande-cidade-em-tamanho-e-desafios. Acesso em: 2026.

GUARULHOS TODO DIA. Sem arranha-céus, Guarulhos cresce com condomínios populosos e bairros verticalizados. 19 maio 2025. Disponível em: https://guarulhostododia.com.br/colunas/2025/05/19/sem-arranha-ceus-guarulhos-cresce-com-condominios-populosos-e-bairros-verticalizados/. Acesso em: 2026.

LEFEBVRE, Henri. O direito à cidade. São Paulo: Centauro, 2001.

MARICATO, Ermínia. O impasse da política urbana no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2011.

MARICATO, Ermínia. Para entender a crise urbana. São Paulo: Expressão Popular, 2015.

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