Bairro do Macedo e a história que continua

Não se sabe ao certo como o loteamento do Bairro do Macedo surgiu. Porém, a existência de chácaras, olarias e agricultura de subsistência marcaram as primeiras ocupações na região. É marcante também a presença de granjas que abasteciam o mercado com São Paulo. Suspeita-se que desses núcleos o nome “Macedo” tenha originado.

Vista aérea histórica do Bairro do Macedo, mostrando a urbanização e áreas residenciais, com montanhas ao fundo.
Vista do Macedo, sem data. Arquivo Histórico Municipal de Guarulhos.

As divisas entre Av. Paulo Fachinni, Monteiro Lobato e Otávio Braga contornam o bairro que tem na face noroeste divisões menos estabelecidas com o bairro do Bom Clima, tendo como principal marca limítrofe a escola Vereador Antonio de Ré que em 1976 era chamada de Escola Estadual de Primeiro Grau Jardim Santa Bárbara. Em 1979 passou a denominar-se Escola Estadual de Primeiro e Segundo Graus Vereador Antonio de Ré, levando o nome de uma importante liderança local que inclusive foi presidente da Associação Atlética Macedo.

Próximo à rodovia Dutra, dois marcos da arquitetura podem ser vistos: A Capela Bom Jesus do Macedo e o Centro Educacional Adamastor. A primeira capela possivelmente foi edificada em 1900, uma construção em taipa de pilão, em homenagem a Bom Jesus de Pirapora. A construção atual, de 1935, foi feita em tijolos assentados com barro. O edifício continua resistente ao crescimento urbano à sua volta. Na década de 1970, o interventor federal Jean Pierre Herman de Moraes Barros declarou o local de utilidade pública federal com o objetivo de alargar a avenida e, por consequência, demolir a capela. A Igrejinha resiste desde então com suas paredes margeando a avenida. Em 2000 ela foi tombada pela prefeitura de Guarulhos através do Decreto Nº 21143/2000.  

O Centro Municipal de Educação Adamastor, localizado na Avenida Monteiro Lobato, está localizado no antigo prédio da Fábrica Casimiras Adamastor. O edifício foi inaugurado em 1946 com a fábrica funcionando no mesmo local até a década de 1980. Após sua falência, o espaço foi alugado para um atacadista do ramo de estofados e, posteriormente, para uma pista de kart. No entanto, esse último empreendimento também encerrou suas atividades e o local permaneceu vazio por um longo período. Tombado na mesma lei citada, hoje é um importante patrimônio da memória industrial da cidade, funcionando como centro cultural que abriga biblioteca, teatro e o Arquivo Histórico Municipal de Guarulhos.

Em 11 de março de 1938 chegam ao município as primeiras multinacionais. O bairro do Macedo foi um dos pioneiros na entrada das indústrias em Guarulhos. As multinacionais Norton Meyer S.A e a Harlo do Brasil Indústria e Comércio S.A., com galpões enormes marcaram a paisagem do bairro.  Um outro exemplar de edifício industrial foi o Frigorífico Mercantoni, que, posteriormente, virou a Darfrigo. Construído em 1954, se especializou no abate de suínos e na produção de seus derivados virando uma referência no Brasil. A sua presença no bairro também é lembrada pelos urubus e outros animas que ficavam próximo do abatedouro, atraídos pelos restos de animais. Hoje as ruínas do edifício atraem a atenção de quem mora na região.

A vocação industrial se confunde também com o futebol e o carnaval no bairro. Essas históricas podem ser colhidas nos jornais antigos da cidade, como a seguir:

Imagem de um recorte de jornal que menciona um jogo entre o clube Euclidense e o V. Nilo, destacando o interesse local no evento.
Recorte de jogo entre o time do Macedo e o de Vila Nilo. Acervo Correio do Povo, 19 de setembro de 1936

Um dos clubes de futebol de várzea mais antigo da cidade de Guarulhos é a Associação Atlético Macedo. Tudo começou com a ideia de se fazer uma banda. As famílias Avena, Francisconi e Damiani se reuniram e, ao invés de uma banda criaram um time que daria origem a um clube. Nasce então em 1928, a partir da preocupação com a falta de divertimento do local, o A. A. Macedo.

O time de futebol existe ainda hoje, sendo um emblemático campo de várzea na cidade. Várzea mesmo, chão de terra batido para os boleiros colocarem a prova sua habilidade Seus bailes de carnaval também permanecem ainda hoje.

Outro elemento importante no bairro é a existência dos movimentos culturais que tiveram a região como ponto de encontro. Uma referência sempre lembrada são os eventos organizados por Gilmar “Capote” Gomes de Oliveira, no local denominado de “Espaço Capote”. A rua do Capote ficou eternizada como sinônimo de cultura em eventos como “Caia no Capote” ou o “Capote Vivo”, ocasião que se aglutinava uma efervescente cena cultural independente. Era um acontecimento de várias dimensões ou como dizia um dos panfletos “Viver sem amarras, transbordando cultura independente para Guarulhos e região e acreditando que a profusão da arte pode fazer diferença na vida das pessoas.”  Foi local do teatro, cinema, artes plásticas e da música. Para além disso tudo, local de agitação e engajamento cultural. Gilmar nos deixou recentemente, em janeiro de 2023 e faz falta.

Talvez como simbiose do melhor que se tem no Bairro do Macedo, a mistura de cultura, música e futebol, o Havana Futebol Clube com sede na mesma rua do Capote, tenta seguir esse legado desde 2019. Além do time de futebol com sede no bairro, o clube tem espalhado outras ações como a realização de escolinhas de futebol popular nas franjas de Guarulhos, as práticas esportivas na escola Vereador Antonio de Ré, o Clube de Leitura mensal, o Cursinho Popular preparatório para o ENEM e os projetos voltados para a saúde mental. Tem a parceria combativa com o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) em outras ações. Por fim, o bar-sede que aglutina parte importante da agitação cultural e política da cidade de Guarulhos.   

Finalmente, a praça das Pedras como local emblemático da cultura no bairro. Tendo o nome oficial de praça Gilberto Van Mill, o local é sede de uma tradicional festa junina todo ano, mas também serve de encontro para outras expressões de cultura como eventos de música, feiras culturais, projetos de cinema, encontros de hip hop e as batalhas do Slam do Prego. É esse o bairro do Macedo. Um local em que a história e cultura continuam sendo produzidas.

*Artigo publicado com apoio da Política Nacional Aldir Blanc do Ponto de Cultura AAPAH – Memória, Cidadania e Patrimônio

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