Entre o poço e o cano, a água que não subia a quebrada

Uma história da água na periferia de Guarulhos

O acesso à água, historicamente, tem sido um desafio para os moradores das periferias brasileiras. No processo de consolidação dos loteamentos periféricos e das favelas, a água — componente básico para a vida humana — era inacessível a essas comunidades, sendo muitas vezes obtida por meio da ação dos próprios moradores. Em Guarulhos, essa história é marcada pela relação com os córregos, os poços e as lutas sociais pelo direito à água na cidade. Neste artigo, busco brevemente historicizar a trajetória da água nos territórios periféricos de Guarulhos. Essa história revela um mar de resistências, estratégias e desafios vividos — e ainda vivenciados — pelas populações que habitam as margens da cidade.

A relação que os moradores mantêm com a água em Guarulhos é antiga. No entanto, neste artigo, chamarei atenção especialmente para o momento em que o processo de urbanização da cidade se intensifica — sobretudo a partir do início da década de 1930 —, quando os melhoramentos urbanos começaram a chegar à cidade recém-emancipada, que buscava, como apontam Guerra e Canoletto (2022), se reorganizar administrativamente: instalação de serviços, abertura de ruas e estradas, iluminação pública e, claro, o acesso à água e ao saneamento básico (Guerra e Canoletto, 2022, p. 43).

A imprensa é um caminho possível para observarmos como as discussões sobre o saneamento básico e o acesso à água encanada começaram a ganhar força nesse período. O Correio do Povo, periódico que circulava na década de 1930, trazia em algumas edições breves colunas e opiniões sobre a rede de esgoto e o abastecimento de água no município. As discussões enfatizavam o atraso em que a cidade se encontrava pela falta de um sistema adequado. Em uma dessas colunas, publicada em 6 de fevereiro de 1932, o jornal fazia comentários de tom pejorativo sobre os hábitos de outros povos, ao mesmo tempo em que expunha as deficiências locais. Naquele período, a região central de Guarulhos ainda não possuía uma rede de abastecimento consolidada; os moradores dependiam de poços, córregos próximos e algumas bicas d’água.

Correio do Povo. Edição de 6 de fevereiro de 1932
Correio do Povo. Edição de 19 de Janeiro de 1935.

Essa realidade mudaria de forma mais acentuada a partir da década de 1960, quando foi implementada a rede de água e esgoto na cidade. Um dos personagens mais lembrados pelos moradores mais antigos de Guarulhos é o engenheiro Plínio Tomaz (1944–2025), protagonista desse período. Plínio destacou-se por ter sido um dos fundadores e diretor técnico do SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto), sendo recordado como uma das figuras que estiveram à frente do planejamento e da instalação do sistema de abastecimento de água na cidade. As ações que liderou tinham como objetivo ampliar o acesso à água, sobretudo nas regiões periféricas. Poços artesianos e caixas d’água começaram a ser instalados em várias localidades, marcando a paisagem de bairros como o Gopoúva, o Jardim Santa Francisca e o Reservatório de Água do Picanço, o que ampliou o abastecimento para além da área central de Guarulhos.

Apesar de o SAAE ter alcançado parte dos territórios periféricos, nem todas as regiões foram atendidas. Nas décadas seguintes a 1960, a cidade vivenciou um processo acelerado de urbanização, intensificado pelo fluxo migratório. Sem um planejamento urbano efetivo, Guarulhos mergulhou em um cenário de desordenamento territorial, no qual surgiram os loteamentos periféricos e as favelas. A Favela da Vila Flórida, considerada a primeira do município, formou-se às margens de um córrego; havia também pequenos barracos ao longo do Rio Baquirivu-Guaçu, como aponta Gama (2009) ao analisar o processo de favelização em Guarulhos.

Favelas nas margens do córrego Baquirivu-Guaçu, em Cidade Satélite, Cumbica. Fonte: Arquivo Histórico Municipal de Guarulhos. Sem data. Autoria desconhecida.

Na memória dos moradores das periferias, é sempre lembrada a abertura de poços e as longas caminhadas em busca de água para garantir o abastecimento mínimo nas casas e barracos. Em contrapartida, em dias de muita chuva, enchentes sem fim inundavam essas moradias, evidenciando a precariedade das condições de vida. Diante desse cenário, os moradores se mobilizaram para lutar pela instalação de água encanada e tratada em seus territórios, utilizando diversas estratégias e caminhos possíveis.

A década de 1980 foi um período importante para compreender as mobilizações pelo direito à água em Guarulhos. Nesse momento, essas demandas se intensificaram, articulando-se com outras lutas urbanas, como as pelo direito à moradia, à energia elétrica e à saúde. O bairro do Cabuçu foi uma das regiões de Guarulhos que protagonizaram a luta por água tratada. A mobilização dos moradores ocorreu em conjunto com o Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Guarulhos (CDDH). É desse período o surgimento do jornal Lata D’Água, que denunciava a falta de abastecimento na região e mobilizava os moradores periféricos na luta pelo direito à água no Cabuçu.

A região do São João também foi palco de uma série de mobilizações políticas. De acordo com Pietá (1992), as lutas dos moradores por água na década de 1980 se intensificaram, uma vez que 32,4% da população da cidade ainda não tinha acesso à água tratada, evidenciando o abismo de desigualdade no acesso a esse bem essencial (Pietá, 1992, pp. 133–135). Outro importante periódico, o Jornal Repórter de Guarulhos, denunciava tanto as ações de remoção de favelas quanto a falta de água e luz nesses territórios. Destaca-se uma reportagem sobre a favela de Santa Cecília, que relatava a morte de uma criança em decorrência das más condições de abastecimento.

Capa e página 4 da edição de Setembro de 1980 do Repórter de Guarulhos

Além do Cabuçu, moradores de outras regiões periféricas de Guarulhos também se mobilizaram. Um exemplo marcante é o da região de Bonsucesso, onde protestos de moradores chegaram a bloquear a Via Dutra, importante rodovia brasileira que corta a cidade. Essa região sofreu constantemente, nas décadas de 1980 e 1990, com a falta de água. A organização desse movimento ocorria em frente ao Santuário de Nossa Senhora do Bonsucesso, onde eram realizadas assembleias gerais para planejar e coordenar as ações coletivas.

Essas experiências revelam que a história da água na periferia de Guarulhos é também marcada por uma a história das desigualdades urbanas e das resistências cotidianas. A luta pelo direito à água, que atravessa décadas, mostra como os moradores periféricos transformaram a escassez em organização, e a ausência do Estado em ação coletiva. Ainda hoje, a memória dessas mobilizações ressoa nas comunidades, lembrando que o acesso à água é, acima de tudo, uma conquista social construída pelas mãos do povo.


Jornais:


CORREIO DO POVO. 19 de janeiro de 1935. Disponível em: https://aapah.org.br/correio-do-povo/correio-do-povo-19-1-1935/
CORREIO DO POVO. 6 de Fevereiro de 1937. Disponível em: https://aapah.org.br/correio-do-povo/correio-do-povo-2-1937
O REPÓRTER DE GUARULHOS. 11. Dezembro de 1978. Disponível em: https://memoriasdaditadura.org.br/documento/o-reporter-de-guarulhos-11/
O REPÓRTER DE GUARULHOS. 29. Setembro de 1980. Disponível em: https://memoriasdaditadura.org.br/documento/o-reporter-de-guarulhos-29/
O REPÓRTER DE GUARULHOS. 27. Julho de 1980. Disponível em: https://memoriasdaditadura.org.br/documento/o-reporter-de-guarulhos-27/
Referências Bibliográficas:
CAMPOS, Daniel Carlos dos; FERREIRA, José Abilio.; OLIVEIRA, Elton Soares de. Revelando a História dos Pimentas e Região: nossa cidade, nossos bairros!. São Paulo: Editora Noovha América, 2014.
CAMPOS, Daniel Carlos dos; FERREIRA, José Abilio.; OLIVEIRA, Elton Soares de. Revelando a História do São João e Região: nossa cidade, nossos bairros!. São Paulo: Editora Noovha América, 2014
CARVALHO, Bruno Leite de. A implantação da rede de água em Guarulhos. Guarulhos: AAPAH, 2020. Disponível em: https://aapah.org.br/a-implantacao-da-rede-de-agua-em-guarulhos/
GAMA, Nilton César de Oliveira. O processo de conformação da periferia urbana no município de Guarulhos: os loteamentos periféricos como (re)produção de novas espacialidades e lugar de reprodução da força de trabalho. 2010. Dissertação (Mestrado em Geografia Humana) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.
GUERRA, Tiago Cavalcante; CANOLETO, Ivan. Guarulhos: Olhares sobre o Trabalho e Cotidiano. Guarulhos: AAPAH, 2022. Disponível em: https://aapah.org.br/publicacoes/guarulhos-olhares-sobre-trabalho-e-cotidiano/
LEANDRO, Expedito. Formação de Uma Metrópole: Guarulhos. São Paulo: CDDH, 1996
OLIVEIRA, Antônio Ferreira de [et al.]. Revelando a história do Bonsucesso e região: nossa cidade, nossos bairros. Guarulhos: Noovha América, 2010, 120 p.
PIETÁ, Elói. Revirando a História de Guarulhos. São Paulo: Caja, 1992.
TOMAZ, Plínio. Cronologia da água em Guarulhos. Guarulhos: Plínio Tomaz, 2006.

*Artigo publicado com apoio da Política Nacional Aldir Blanc do Ponto de Cultura AAPAH – Memória, Cidadania e Patrimônio

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