Casarão Saraceni: quando a história vira escombros

Neste mês de novembro, completam-se quinze anos do destombamento e da demolição do Casarão Saraceni. Foi em 5 de novembro de 2010 que o Casarão, então destombado por ação da Câmara Municipal de Guarulhos e omissão da Prefeitura, da Secretaria de Cultura e do Conselho de Patrimônio Histórico, foi ao chão. A AAPAH foi protagonista na luta contra a demolição do edifício, que se localizava dentro do estacionamento do Internacional Shopping de Guarulhos e pertencia a Antônio Veronezzi. Contaremos o episódio em dois artigos, detalhando primeiro a história da Casa e, depois, a história da sua demolição.

Vista do Casarão. Fonte: São Paulo Antiga, s/d

Família Saraceni

José Saraceni foi um imigrante italiano que chegou ao Porto de Santos com a família no ano de 1895, aos 17 anos. Após uma rápida estadia em Bica da Pedra, conhecida como Itapuí, no interior de São Paulo, ele veio para a capital, onde abriu uma oficina para consertar sapatos. Conheceu Anita Saraceni, a futura matriarca, e se casaram. Abriram a oficina na Avenida Tiradentes, em São Paulo, e adquiriram uma chácara no bairro do Gopoúva, na cidade. Segundo relatos da família, ele “namorava” há muito tempo uma chácara próxima à Estrada de Guarulhos, atual Av. Guarulhos. Conforme a família relata, a chácara tinha casas inacabadas, mas a casa principal — com escadarias, alpendre e porão — chamava a atenção. Sua fachada tinha o “inconfundível” estilo europeu que lembrava suas origens: o Art Nouveau. Presume-se que a construção fosse de 1900.

Família Saraceni em 1938. Detalhe da fachada do Casarão no canto superior esquerdo. Fonte: Grupo Guarulhos Antiga, publicação de Sérgio Riganelli

Vindo da Penha, onde a família possuía uma casa de calçados e artigos para o esporte, José Saraceni adquiriu a chácara em 1919, junto com o casarão que seria conhecido posteriormente como Casarão Saraceni. No edifício, ele moraria com a família e, no porão, montaria sua oficina, que seria a primeira fábrica de calçados da cidade, fornecedora para os quartéis da Força Pública, localizados na Várzea do Glicério, no município de São Paulo.

Durante a Revolução de 1924, também conhecida como Revolta Paulista, conflito armado entre o governo federal e parte das Forças Armadas, o Casarão serviu de refúgio para 80 pessoas, parentes dos combatentes paulistas. Entre as histórias colhidas sobre o casarão, um destaque foi a participação da família Saraceni na Revolução Constitucionalista de 1932. O edifício chegou a abrigar revoltosos de São Paulo. Além de fabricar couros e perneiras para os paulistas, um dos Saraceni serviu à coluna Romão Gomes.

As histórias colhidas pelo fotógrafo Massami Kishi, assim como pelos herdeiros da família Saraceni, ilustram que o local seria um “cantinho da Itália” para a família. Além de finalizar a construção do edifício e instalar a oficina, José Saraceni organizou uma vila de onze casas, destinada aos trabalhadores da fábrica, que contava com a gratuidade dos serviços (luz, água e comida). Foi implantada, ainda, em 1933, uma escola com duas classes para os filhos dos trabalhadores. A imagem a seguir, retirada do Geoportal em 1958, apresenta a casa em destaque amarelo e o ambiente citado. É possível ver o teto do edifício da Olivetti.

Foto de Satélite, Fonte: Geoportal, 1958

Em outras imagens, temos também como a Vila pensada por José Saraceni se organizou, tendo o casarão como elemento destaque do conjunto urbano.

Vista aérea da fábrica em sua primeira fase da construção. Destaque também para o conjunto edificado em torno do Casarão Saraceni. Fonte: AHCG, 1959

O Casarão como referência na cidade

A metamorfose do Casarão Saraceni pode ser vista como o emblema do processo de transformação industrial e urbana da cidade, assim como da vida dos trabalhadores. O patriarca da família faleceu em 1942, dentro da casa. Paralelamente, ocorria também uma transformação na produção industrial da cidade. A partir de 1950/1960, houve um aumento extraordinário no número de indústrias instaladas no município com a chegada das multinacionais e a ampliação dos setores produtivos. O setor têxtil, que se destacava nas décadas de 1910 e 1920, teve sua participação reduzida no cenário industrial de Guarulhos. (CANOLETTO et al, 2022). As mudanças impactaram os negócios da Família Saraceni.

A matriarca, Anita Saraceni, faleceu em 1972, deixando onze filhos, netos e bisnetos. A chácara, situada na beira da Rodovia Dutra, em razão da hipervalorização imobiliária comum a qualquer terreno nessa condição, foi vendida para a multinacional Olivetti em 1973, para ampliação do parque industrial já instalado pela empresa italiana desde 1959 nos arredores. A moderna fábrica foi um projeto do arquiteto italiano Marco Zanuso. Montada com equipamentos modernos para fabricar em larga escala máquinas de escrever e calculadoras, a construção, que reproduzia uma máquina de escrever, tornou-se também icônica, sendo seu teto tombado pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo).

Parte das casas dos operários foi demolida na década de 1970 em diante, permanecendo no local a residência principal e o grande quintal do Casarão. Entre os anos de 1980 e 1990, os donos da Olivetti transformaram a casa em um espaço para os funcionários. Nesse período demandas históricas, sociais, culturais e arquitetônicas influenciaram o tombamento pelo Município, por meio da lei orgânica no seu inciso XI do artigo 28, promulgado em 5 de abril de 1990.

Art. 28. Ficam declarados como imóveis de interesse de preservação do patrimônio cultural de Guarulhos, devendo receber por parte do Município e comunidade tratamento que permita preservar e valorizar, os seguintes imóveis:

(…)XI – Casa em estilo art noveau pertencente à Olivetti do Brasil (LEI ORGANICA DO MUNICÍPIO, 1990)

O significado de Art Nouveau, presente no decreto de 1990 nos parece uma questão importante, que foi pouco refletido em todas as discussões que abrangeram o processo de tombamento da Casa Saraceni. É característica do Art Nouveau — uma variante na Itália que levou o nome de Stile Floreale — a presença de elementos como “linhas sinuosas, assimétricas, burlescas, femininas e formas vegetais” (FREITAS, 2021, p. 169). É observável que o Casarão da Família Saraceni congregava esses elementos importantes, principalmente em sua fachada.

Fachada do Casarão no estacionamento do Shoppin. Fonte: AHCG, s/d

O detalhe do vitral de uma das portas, com motivos florais denotam um pouco essa característica:

Detalhes da porta e o vitral, revelando o estilo Art Nouveau. Fonte: AHCG, s/d

Em 1998, o terreno, juntamente com o Casarão, foi incorporado ao patrimônio do Internacional Shopping de Guarulhos. As fotos a seguir mostram o Casarão funcionando como espaço de formação dos funcionários.

A área do entorno da casa foi toda alterada após a aquisição pelo Internacional de Guarulhos, sendo mantido apenas o Casarão cercado pelo concreto do estacionamento. O tombamento do Casarão foi reafirmado como Patrimônio Histórico da cidade por meio do Decreto nº 21.143, no ano 2000, que agregou a informação de que a Casa havia pertencido à Família José Saraceni. Com uma atenção especial: o Art Nouveau já não constava mais no texto do decreto.

Artigo 1º – Ficam tombados pelo Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Arquitetônico e Paisagístico de Guarulhos os seguintes imóveis:

(…). XI – Casa da Família Saraceni, localizada à Rua José Saraceni nº l62, Bairro do Itapegica, de propriedade do Internacional Shopping Guarulhos. (DECRETO LEI 21143/2000)

Entre os dez anos que separam os dois tombamentos, é importante refletir sobre os atributos históricos que parecem ter-se sobreposto aos arquitetônicos quando se manteve o tombamento do Casarão em 1999. A casa passou a ser da “Família Saraceni” e a referência ao Art Nouveau desapareceu. A memória do Casarão parece, para os legisladores de 1999, ter-se sobreposto ao valor arquitetônico. No entanto, nos decretos de tombamento não aparecem as informações sobre a antiga Vila erguida por José Saraceni, que reforçaria assim o decreto de tombamento.

Podemos analisar, entretanto, que não temos aqui uma contradição, mas atributos em transição que podem adicionar muito mais do que subtrair valores. Conforme aprendemos com o professor Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses, os valores culturais de um bem podem ser cognitivos, formais, afetivos, pragmáticos e éticos, mas, o mais importante, não podem ser vistos isoladamente, já que podem produzir combinações e hierarquias diversas. Apesar da ausência de estudos formais sobre o tombamento do Casarão Saraceni, ou de aprofundamentos sobre o Art Nouveau, ou de estudos urbanos sobre a antiga vila do seu entorno, essas combinações valorizavam o Casarão do ponto de vista histórico e arquitetônico de um jeito único na cidade. A comparação do texto da lei orgânica de 1990 com o decreto de 1999 envolve o Casarão em atributos de valores materiais e imateriais: ou seja, a combinação da memória da Família Saraceni com uma forma de manifestação do Art Nouveau é o que tornava o edifício singular. Seu destombamento e a posterior demolição impediram que conhecêssemos mais essa história.

Referência Bibliográfica

CANOLETTO, Ivan; GUERRA, Tiago Cavalcante. Guarulhos: novos olhares sobre trabalho e cotidiano. 1. ed. São Paulo : AAPAH, 2022.

FREITAS, Marcel de Almeida. O Art Nouveau na arquitetura do Rio de Janeiro (Brasil) e de Buenos Aires (Argentina). REVISTA BARROCO DIGITAL. nº 1. 2021

MENESES, Ulpiano Bezerra de. O campo do patrimônio cultural: uma revisão de premissas. In: Anais do I Fórum Nacional do Patrimônio Cultural. Sistema Nacional de Patrimônio Cultural: desafios, estratégias e experiências para uma nova gestão. Ouro Preto – MG, 2009.

PREFEITURA MUNICIPAL DE GUARULHOS. Decreto Municipal 21143/2000 – Lei Orgânica do Município (Ato das Disposições Transitórias – Art. 28)

__________________________. Lei Orgânica do Município de Guarulhos. 05 de abril de 1990.

*Artigo publicado com apoio da Política Nacional Aldir Blanc do Ponto de Cultura AAPAH – Memória, Cidadania e Patrimônio

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