Cidade dormitório e adormecida

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Cidade dormitório e adormecida

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Urbanismo

O termo Cidade-dormitório se refere a cidades em regiões metropolitanas na qual, grande parte de seu contingente populacional se deslocam diariamente para seus trabalhos em outras cidades, o que também em Geografia chamamos de Migração Pendular. Esse fenômeno da mobilidade populacional vem apresentando transformações significativas no seu comportamento desde as últimas décadas do Século XX, não só no Brasil como também em outras partes do mundo. Até o presente momento, essas mudanças têm demandado um esforço por parte dos estudiosos no sentido de buscar explicações teóricas para esses novos processos, que se materializam, entre outros aspectos, na dimensão interna, tanto pelo redirecionamento dos fluxos migratórios para as cidades médias em detrimento dos grandes centros urbanos, como pelos deslocamentos de curta duração e a distâncias menores, quanto pelos movimentos pendulares, que passaram a assumir maior relevância nas estratégias de sobrevivência dos indivíduos, não mais restritos aos grandes aglomerados urbanos.

Segundo as informações do estudo inédito do IBGE Arranjos Populacionais e Concentrações Urbanas do Brasil, que buscou mapear as interações entre as cidades brasileiras, com base em dados do Censo Demográfico de 2010, o maior fluxo populacional entre cidades por meio de Migrações pendulares se dá justamente entre Guarulhos e São Paulo, ou seja, segundo o estudo cerca de 146,3 mil pessoas se deslocam todos os dias de Guarulhos para São Paulo, ora para trabalhar , para estudar ou os dois , tendo em vista a facilidade de localização.

Para ficar mais claro esses dados, é imaginar que quase um bairro dos Pimentas (Segundo Censo 2010, com 156.748 habitantes) inteiro se desloca diariamente de Guarulhos para São Paulo. Muitos são os reflexos urbanos ocasionados devido a esse movimento diário, entre outros podemos citar a mobilidade em si, principalmente na rodovia Presidente Dutra como via de acesso para a capital paulista, o que entre outros fatores explica os excessivos congestionamentos, principalmente nos horários de maior fluxo.

Outro ponto importante para a reflexão no que tange esse fluxo diário está nos projetos de ampliação do Metrô de SP, que em seu trajeto prevê uma estação em Guarulhos localizada próxima ao Shopping Internacional de Guarulhos, localizado no Bairro do Itapegica. Obviamente o metrô é sim fundamental para a cidade, e algo que de longe já deveria existir em nosso município. Contudo, se a grande parte população de Guarulhos reside principalmente nas proximidades, ou depois do aeroporto (segundo o censo 2010: Pimentas, 156.748; Bonsucesso, 93.597; Cumbica, 91.772; Taboão, 74.933; São João, 73.176; Presidente Dutra, 50.625 habitantes) que tipo de mobilidade esse projeto vai trazer? ou não seria apenas uma medida paliativa, frente ao conjunto de políticas que devem ser contempladas quando falamos de mobilidade, que por si só, não soluciona o real problema do cotidiano urbano vivenciado pelos habitantes de Guarulhos.

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Corredor de ônibus que liga o Taboão com a Vila Galvão. Segundo o Governo do Estado, a obra deve expandida até o Metrô Tucuruvi. Acervo: AAPAH/Bruno Leite de Carvalho.

Mas a questão principal abordada nesse texto e como resultado de uma série de pesquisas, que tem como foco a identidade de Guarulhos, e problematizar as questões urbanas e seus reflexos na busca, afirmação, reinvenção ou até mesmo reconhecimento de uma identidade guarulhense, fruto de sua pluralidade cultural, contradições sociais, seu acúmulo histórico e menos uma identidade pautada sobre a lógica funcional de Guarulhos sob a ótica apenas produtiva como aponta o professor Milton Santos em “Economia Espacial“ (SANTOS, 2007). Nesse sentido a Cidade dormitório carrega em seu bojo os reflexos dos dilemas urbanos, suas segregações e de forma subjetiva a não identificação com a cidade, por não estabelecer nela suas relações cotidianas e de certa forma afetivas, pois tem em seu espaço, a segregação como um dos fatores da sua reprodução, desigual e combinada, exercendo assim um modelo de urbanização (Lefebvre, 1999), notoriamente privilegiando o capital em detrimento ao seu bem estar humano.

São muitas as reflexões diante da busca, e entendimento de uma identidade local, sendo ela a que for, ou o que for. Contudo o que podemos concluir que a cidade dormitório deve deixar de adormecer, se reconhecer em seus patrimônios históricos carregados de toda criticidade que a história nos permite ter, ter meios de comunicação a altura e que de certa maneira posso o habitante se ver nas mídias, fomentar o conhecimento de sua história e agregar políticas públicas que contemple essa identificação, fazendo desta, mecanismo para uma cidade mais das pessoas para as pessoas e não simplesmente vias de acesso, dormitórios, produção, e algo efêmero na vida de seu maior patrimônio: seus habitantes.

Lionel Fontanesi
Lionel Fontanesi
Professor de Geografia da rede publica e privada, membro do Núcleo de Estudos Urbanos da AAPAH. Pesquisador de Geografia local com formação em políticas publicas urbanas pelo instituto Capacidades.

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