Os Fugitivos do Sanatório Padre Bento

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Os Fugitivos do Sanatório Padre Bento

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História de Guarulhos

A lista conta com mais de 100 nomes de internos que conseguiram fugir entre janeiro e junho de 1938. Trata-se de um rol predominantemente masculino, com uma dezena de mulheres. Isso pode ser reflexo da sociedade sexista da época, onde uma egressa teria maior dificuldade em se virar sozinha e seria recriminada pela família, ou até mesmo um indicativo de que as mulheres não se sentissem livres em lugar algum, e se conformavam com o convívio e o relativo ambiente de conforto e sociabilidade que a estrutura do leprosário permitia.

Na tentativa de encontrar possíveis fugitivos, identifica-se que boa parte deles buscou asilo no Rio de Janeiro, onde poderiam circular com menos riscos de serem apreendidos novamente, o que reforça a ideia de uma perseguição aos doentes muito mais ferrenha no Estado de São Paulo.

Esse sentimento de revolta dos internos, que já vinha dando sinais nas fugas e em algumas manifestações, atingiu um ponto alto e se materializou em 1945, quando, segundo relato do Sr. Arnaldo Rúbio, encontrado em seu livro de memórias, todos os asilos-colônias fervilham sobre liderança da deputada Conceição da Costa Neves.

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Sanatório Padre Bento. Ano: 1946. Acervo: Imprensa Nacional.

No Padre Bento, foi roubado o busto do diretor do Departamento de Profilaxia da Lepra, Dr. Salles Gomes, presente em uma das praças do complexo. Durante a madrugada, alguns internos retiraram a escultura do local e a esconderam debaixo de um dormitório. Informado de uma possível rebelião no Padre Bento, Salles Gomes acionou a polícia e se dirigiu para o sanatório. A polícia chegou primeiro que o diretor, com a ordem de desarmar os internos e prender aqueles que possuíssem armas. Ao perceber que não havia armas e que os revoltosos eram pacientes mutilados e acamados, a polícia se retirou, mas não sem antes entoar o hino nacional acompanhada por alguns internos em suas janelas. Isso é um exemplo dos efeitos do sentimento nacionalista estimulado pelo Governo Vargas nos anos que antecederam 1945, e como isso reverberava nas pessoas e nas instituições.

O apoio da deputada Conceição da Costa Neves a esses levantes também ocorreu em 1945, depois da saída de Vargas, seu correligionário do PTB no governo federal.

Entre 1944 e 1970, foi considerada a “mãe dos leprosos”, defendendo os interesses dos internos, se reunindo com fugitivos dos leprosários, organizando motins… Seu interesse pelos doentes é atribuído ao fato de ter sido casada com um médico, do qual se desquitou.

Ivan Canoletto Rodrigues
Ivan Canoletto Rodrigues
Mestre em História pela PUC-SP, associado da AAPAH, coautor do livro “Signo e Significados em Guarulhos: identidade, urbanização e exclusão” e autor de “Chagas da Exclusão”.

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