Gopoúva tinha poucas casas quando instalaram o sanatório

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Gopoúva tinha poucas casas quando instalaram o sanatório

Sanatório Padre Bento

Locais distantes da cidade de São Paulo eram designados para o isolamento destes “estigmas” mentais e físicos. O bairro do Mandaqui e Jaçanã em São Paulo e, também, cidades ainda mais longe, como Guarulhos e Mairiporã, ou Campos do Jordão. Os estigmas físicos eram a tuberculose e aquela mais forte e temida, o mal de Lázaro, a lepra.

O sanatório, agora hospital, foi fundado em 1931 em Guarulhos\SP na região dos bairros de Gopoúva e Tranquilidade.  As citações da lepra são antiquíssimas, como na Bíblia, sempre como estigma. No Novo Testamento, Cristo se aproxima de “impuros”, assim considerados pelos judeus da época, baseados em dogmas religiosos.

Voltando, verificou-se que a data remetia a fundação do primeiro sanatório paulista (Jundiapeba), sob demanda social de isolamento dos, a época, chamados leprosos, em colônias. O termo “colônia” nesse caso tem o sentido de “colônia penal”, ou seja, os leprosos deveriam ser isolados em locais onde vivessem fora de quaisquer oportunidades de contato físico com o restante da sociedade, dita normal e saudável.

Internos em frente à Igreja de São Charbel. Acervo: Arquivo Histórico de Guarulhos. Se data.

Internos em frente à Igreja de São Charbel. Acervo: Arquivo Histórico de Guarulhos. Se data.

No filme Onde a esperança mora, de 1948, que tem como cenário o Sanatório Padre Bento, a demanda higienista é ressaltada, passando ao público a contradição de um Estado progressista como São Paulo ter leprosos em bairros longínquos passando a cavalo pelas casas ou a beira de estradas a esmolar, ameaçando os saudáveis do contágio do “mal de Lázaro”, outro velho nome da doença que também remete a sua ancestralidade, na Bíblia.

Um terreno usado por um manicômio (loucura, outro estigma social) em região relativamente próxima a capital foi visto como oportunidade para que pessoas da capital e regiões próximas, vítimas da doença fossem asiladas. O termo asilo tem a conceituação de afastamento. Algo como asilo político em que pessoas de ideologia não aceita por uma sociedade com regimes ditatoriais são obrigadas a se afastarem, refugiando-se em outro país de regime mais livre que o acolha e proteja.

Esse terreno, em 1915, também era servido por ferrovia entrando em Guarulhos pelo bairro de Vila Galvão e continuando até Gopoúva, sede do antigo Sanatório, hoje Hospital Padre Bento, antes das estações Vila Augusta, Torres Tibagi e o final, ao Centro (Estação Guarulhos).

Imagine em 1931 a ideia que uma pessoa dos bairros centrais da capital fazia de Guarulhos, quando não havia nem a Via Dutra. Adensamentos populacionais pequenos, se comparados com a atualidade. Áreas baldias entre um e outro bairro. Forçando um pouco a imaginação, quase cidades do interior não conurbadas com um trem cruzando-as, todos os dias. Ao mesmo tempo isolado e incluído na rede de transporte regular. Parece estranho, mas era perfeito.

Ao mesmo tempo em que o autoritarismo do Estado exercido também pelas posturas médicas agia violentamente tirando crianças de pais e pais de crianças com a lei de internação obrigatória, as instalações eram um fenômeno de solidez e eficiência, e até mesmo, contraditoriamente, de acolhimento.

Como assim, acolhimento? Casas sólidas, privilegiando o conforto, esportes, campos de futebol tamanho oficial com arquibancadas que não deviam nada às dos grandes times, salões de baile show em dias de festa, pérgola florida para encontros, teatro, cinema e, pasmem, cassinos.

Diversões, namoros, casamentos… Porém, sabia-se que sem a cura, as grades de ouro da gaiola não se romperiam. Pense-se, de 1931 à década de 1960. Período em que a medicina desconhecia a doença que produzia estigma e demanda de assistência e restrição social. Pessoas asiladas que nunca veriam as ruas, pois o fato de que a doença era fruto de um bacilo, como a tuberculose, curada com sulfa, só foi conhecida pela medicina nesta mesma década de 1960.

Em depoimentos de ex-internos (novamente a referência à prisão) falam-se de internação forçada, famílias que se acabavam quando pais eram internados e os filhos dados em adoção. Hoje há associações de ex-internos que buscam seus filhos sequestrados pelo autoritarismo higienista do Estado. Há livros e vídeos de ex-asilados sobre esse tema.

Assim teria se desenvolvido a área ao redor da Estação de Gopoúva, com a construção de um eficiente e sólido local em que se isolariam da sociedade por longas décadas os estigmatizados e temidos leprosos.

Paulo Garcia
Paulo Garcia
Historiador, colaborador do Espaço AAPAH.

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