História de Guarulhos: O século XIX

A Barragem Cabuçu, a primeira obra de concreto armado no Brasil
30-07-2015
História de Guarulhos: o século XX
04-08-2015

História de Guarulhos

Sobre o século XIX, temos duas balizas relevantes neste sobrevoo sobre a história de Guarulhos. A presença negra em Guarulhos e o processo de institucionalização que levou a consolidação da Vila de Guarulhos.

A demanda por maior presença do estado fiscalizador, assim como pressão de elites locais levou a freguesia de Guarulhos, que congregava também os bairros da Penha e a cidade de Mairiporã (Juqueri na época), ao status de Vila autônoma.

Longe de ser um processo de ideais emancipatórios, o que houve em Guarulhos foi uma acomodação de forças locais que de modo artificial anexaram outras freguesias (Juqueri e Penha), mas também outros territórios que não tinham nenhuma ligação com a região do centro de Guarulhos, como Bonsucesso e Cabuçu.

Para além do heroísmo, o exemplo de João Álvares de Siqueira Bueno é singular. Natural de Guarulhos foi um dos principais articuladores da elevação da freguesia a vila. Durante a década de 1880 conseguiu se eleger como deputado provincial por duas vezes, além de vereador pela capital. Após a emancipação, conseguiu uma concessão de 50 anos da Câmara de Guarulhos para a implantação de uma linha de bonde.

A junção de interesses que facilitassem a dominação local e a exploração econômica levou a ação daqueles “próceres” que hoje carregam seus nomes em ruas do centro da cidade.

Outro elemento com resiliência são as referências as Irmandades Negras presente nesta época. A posse desses documentos é da Cúria metropolitana, localizada no bairro do Bom Clima e é um acervo fundamental sobre a presença negra no município.

Em Guarulhos, segundo contagem oficiais havia pouco mais de 3000 pessoas em todo o território no século XIX. Se somado Penha e Juqueri, temos pouco menos de 10000 pessoas. Não havia um recorte étnico, mas é de supor que havia uma presença negra forte na cidade, resultado da chegada forçada para algumas atividades econômicas incipientes ligadas ao abastecimento interno e da ínfima, mas permanente exploração aurífera na região das Lavras. A Capela de São Benedito (Bonsucesso) e a Irmandade do Rosário dos Homens Preto (Centro) são resquícios institucionais dessa forte presença. E há que se pesar que a foto mais antiga datada na cidade (1906) traz negros em uma procissão.

A Capela de São Benedito foi construída no início do século XX, no mesmo lugar onde antes existira outra capela de mesmo nome destinada aos escravos e índios e que pertencera à Ordem de São Benedito dos Homens Pretos, construída em 1873. Provavelmente iniciada antes. A capela faz parte do itinerário de celebrações da Festa de Bonsucesso.

Capela de São Benedito (Bonsucesso), foto tirada em 2012. Acervo: AAPAH.

Capela de São Benedito (Bonsucesso), foto tirada em 2012. Acervo: AAPAH.

No caso Igreja do Rosário dos Homens Pretos, a construção é datada do século XVIII e temos documentos que tratam da entrada de recursos financeiros para a construção da capela e de casamento de irmãos da igreja. A demolição da Capela em 1930 e que se localizava no atual calçadão Dom Pedro, cujos motivos são discordantes nos documentos da época, mas a luz do fato concreto (a construção de um clube para o cotidiano das elites brancas da cidade) nos mostra como para a história dos vencidos, é reservada apenas uma sombra no frio concreto.

Artigo originalmente publicado no Semanário Ótimo:

Tiago Cavalcante Guerra
Tiago Cavalcante Guerra
Historiador, diretor geral da AAPAH, coautor dos livros “Cecap Guarulhos – Histórias, Identidades e Memórias”, “Guia Histórico Cultural de Logradouros – Lugares e Memórias de Guarulhos” e “Signos e Significados em Guarulhos – Identidade – Urbanização – Exclusão”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Comment moderation is enabled. Your comment may take some time to appear.