Guarulhos 454 anos: momento de reflexão

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História de Guarulhos

Mais uma vez a cidade de Guarulhos se coloca diante do oito de dezembro para comemorar seu aniversário. Digo mais uma vez, pois nem sempre esta data esteve associada ao aniversário da cidade, só em 1960 passou a fazer parte do seu calendário oficial, oportunamente, a tempo de comemorar os 400 anos de sua fundação e a ser, desde então, lembrado e celebrado anualmente.

Desde então, a imprensa local tem apresentado, em edições especiais, depoimentos de políticos e empresários sobre suas lutas ao longo dos anos, de suas conquistas do presente e sobre suas expectativas quanto ao futuro. Também nos são lembrados os esforços intelectuais que buscaram desvendar os distantes acontecimentos de nossa história e, entre uma missa e outra, celebradas sob a invocação da padroeira da cidade, Nossa Senhora da Conceição, nos são oferecidos shows de artistas de sucesso financiados pelo Poder Público, que não abre mão do momento, por meio de seus representantes, de enaltecer seus feitos.

Esse ano, provavelmente o ritual se repetirá, tintim por tintim, conforme o script proposto nas ultimas décadas, com as heroicas exceções de praxe, que procurarão abrir caminho através das frestas que vão surgindo como possibilidades de arejar nosso olhar, sob a versão oficial que vem sendo repetida a exaustão.

Catedral de Nossa Senhora da Conceição, Igreja Matriz de Guarulhos, começo do século XX. Acervo: Arquivo Histórico de Guarulhos.

Catedral de Nossa Senhora da Conceição, Igreja Matriz de Guarulhos, começo do século XX. Acervo: Arquivo Histórico de Guarulhos.

Procurar exemplos dessas exceções, dentro dessa densa nuvem que tem nos apresentado uma versão unívoca da construção sócio histórica da cidade, torna-se um exercício de paciência e atenção. O volume e a força dessa tradição têm ecoado a muito em nossa sensibilidade e encontrado respaldo em parte dos ouvintes. Quanto aos que constroem e tem dado cor e vida a essa História, pouco ou nada se aproxima ou diz respeito.

Partindo da invenção dessa data oficial que encontra tão poucos elos com guarulhenses, há uma tensão permanente entre o desejo de uma alegre modernidade e de um progresso linear e ininterrupto diante dos limites que o próprio desenvolvimento da cidade impõe e essas aspirações.

Portanto, no conjunto da efeméride deve ser observado com mais vagar esse momento em que o mote da historia da cidade se coloca de maneira categórica. Retomá-la em suas muitas cores e em seus deferentes tons significa oferecer uma oportunidade às tantas vozes silenciadas e quem sabe, oferecer algo para se identificar nesse turbilhão de coisas que Guarulhos se tornou.

 

Artigo publicado originalmente no Semanário Ótimo:

Adilson Nascimento Freire
Adilson Nascimento Freire
Graduado em História. Gerente do Arquivo Municipal de Guarulhos. Coautor dos livros “Cecap Guarulhos – História, identidades e memória” e “Signos e Significados em Guarulhos: Identidade – Urbanização – Exclusão”.

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