O aeroporto em Guarulhos: do ‘não’ ao cartão postal

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O aeroporto em Guarulhos: do ‘não’ ao cartão postal

História de Guarulhos

Inaugurado em 29 de Janeiro de 1985, o aeroporto Governador André Franco Montoro, ou apenas Aeroporto de Cumbica, se constitui, hoje, em uma importante referência da cidade de Guarulhos. Muitas vezes confundido como pertencente a São Paulo, depois de quase 30 anos o Aeroporto hoje é visto como importante cartão postal da cidade. Mas nem sempre foi assim é isto vamos discutir hoje.

A intenção de construir um aeroporto que conciliasse o tráfego aéreo crescente em São Paulo, através de Congonhas, e o permanente desenvolvimento da aviação comercial o que demandava aviões cada vez maiores, data dos anos 1950.

Nos anos 60, foram levantadas várias cidades, como por exemplo, Mogi das Cruzes, Campinas, Ibiúna e Cotia. Todas chegaram a ser uma opção, mas os altos custos, a necessidade de desapropriação e a distância para a capital desaconselhavam a construção nestas cidades.

Ao optar por Guarulhos, pesou a existência da base aérea de São Paulo o que conciliaria a aviação comercial e militar e a doação de 10 milhões de hectares por parte da aeronáutica. A área escolhida levava o nome de Cumbica, ou “nuvem baixa” em tupi-guarani. Por sinal este era um dos fatores negativos: os nevoeiros eram vistos como impeditivo para a instalação do aeroporto.

Foto aérea do Aeroporto Internacional de Cumbica, 1996. Acervo: Arquivo Histórico de Guarulhos

Foto aérea do Aeroporto Internacional de Cumbica, 1996. Acervo: Arquivo Histórico de Guarulhos

Havia também uma restrição local. Em 1979, o prefeito de Guarulhos Nefi Tales queria uma contrapartida financeira para se construir o aeroporto. O prefeito também sugeriu um plebiscito, já que a população era contra a construção.

Órgãos da imprensa, a prefeitura e muitos moradores de Guarulhos encarnaram a luta do ”Aeroporto não!!”. Os argumentos eram diversos: na visão da Prefeitura faltava algum tipo de contrapartida; na visão de moradores da região, haveria o risco de queda de avião e transtornos sonoros frequentes.

Por exemplo, no Cecap. A construção era vista de forma negativa por vários condôminos. O Conselho Comunitário organizou um abaixo assinado contra a instalação da pista de Cumbica. Neste bairro, o aeroporto teve efeito ambivalente no fluxo de moradores: concomitante à saída dos velhos moradores, com medo do impacto dessa obra, dá-se a chegada dos novos moradores que trabalhariam no aeroporto.

Enfim, em 1979 a Aeronáutica assume todo o investimento da obra, que fica pronta em 29 de Janeiro de 1985. Mesmo com toda a mobilização, não houve contrapartida alguma. O Aeroporto se torna um organismo insular em Guarulhos, com pouca ou nenhuma relação com a cidade durante muito tempo, a ponto de haver ônibus de São Paulo que tinha como destino a Cumbica e em Guarulhos não.

O processo de identificação do Aeroporto com a cidade de Guarulhos avançou muito nesses 29 anos e com justeza a cidade deve reivindicar cada vez mais esta referência. A efeméride dos 30 anos do Aeroporto de Guarulhos em janeiro de 2015 é uma oportunidade a mais para a consolidação deste processo.

 

Texto originalmente publicado no Semanário Ótimo:

Tiago Cavalcante Guerra
Tiago Cavalcante Guerra
Historiador, diretor geral da AAPAH, coautor dos livros “Cecap Guarulhos – Histórias, Identidades e Memórias”, “Guia Histórico Cultural de Logradouros – Lugares e Memórias de Guarulhos” e “Signos e Significados em Guarulhos – Identidade – Urbanização – Exclusão”.

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