Signos e Significados em Guarulhos: Identidade, urbanização e exclusão

O livro reúne oito artigos. A Parte I intitulada de “Guarulhos cidade símbolo? O conservadorismo da intelligentsia guarulhense” traz os textos “O IV Centenário em Guarulhos: espelhando a capital paulista”, “Diáspora, identidade e Cultura em Guarulhos” e “A construção de um paradoxo – a moderna tradição guarulhense”. Essa etapa fala sobre os símbolos criados para a comemoração do IV Centenário de Guarulhos, a versão oficial da história guarulhense criada pelos intelectuais da época e suas visões de desenvolvimento.

A segunda parte intitulada “Na contramão do discurso: urbanização, industrialização e exclusão” reúne os artigos: “Folha Metropolitana: a construção de uma identidade na edição comemorativa do aniversário de Guarulhos de 416 anos”, “Em torno da ferrovia e da rodovia: o processo de industrialização de Guarulhos e seu patrimônio industrial (1910-1960)”, “Chagas da exclusão: a internação compulsória no estado de São Paulo – o leprosário do Padre Bento”, “Os significados da emancipação para a periferia de Guarulhos” e “Industrialização, emancipação, patrimônio e identidade”. Os textos partem dos reflexos do desenvolvimento urbano desordenado, a presença dos migrantes, as novas identidades do município e os conceitos disseminados pela intelectualidade local.

Resumo sobre os artigos:

O IV Centenário em Guarulhos: espelhando a capital paulista

Texto de Tiago Cavalcante Guerra

O historiador critica a versão oficial que Guarulhos seria uma cidade pujante devido a uma tradição secular resultante das missões jesuíticas, do ciclo do ouro, do passado indígena e do bandeirantismo. Para tecer seus apontamentos, o autor aponta o plágio à Comemoração do IV Centenário da Cidade de São Paulo, a monumentalização do passado e o espaço de disputa para consolidar memórias. Assim, é permeado o desenvolvimento após a Emancipação Política de Guarulhos e a criação de uma identidade imaginada pela elite local – A Cidade Progresso. Assim como em outras comemorações quartocentenárias, perde-se de foco “as existências e sociabilidades que conviveram ao mesmo tempo (…) ao universalizar a experiência da memória coletiva para o núcleo central”, excluindo a participação de personagens e manifestações culturais (“núcleos identitários espalhados pelo território”) distantes do centro de poder.

Diáspora, identidade e Cultura em Guarulhos

Texto de Augusto Cesar Mauricio Borges

Debruçado no conceito da diáspora africana, o historiador reúne dados sobre a migração urbana coincidente com a celebração do IV Centenário. Nos símbolos criados para comemorar o passado de Guarulhos, ficaram de fora os novos habitantes que naquele momento chegavam aos montes devido a industrialização. O artigo vai ao lado oposto da história contada pelos intelectuais deslumbrados com identidade de cidade progresso, assim, é apontada a periferização, a chegada de nordestinos e nortistas, a criação de novos laços identitários. A análise de Augusto Cesar discute o progresso industrial atrelado aos baixos salários, às dificuldades para moradia e a ausência de estrutura urbana. O conservadorismo dos memorialistas guarulhenses não é poupado durante todo o texto.

Ao desenhar uma identidade cultural de Guarulhos a partir dos desejos pessoais de autores e atores da classe social dominante, ocultando conflitos sociais e subvertendo os traços reais do crescimento populacional: a migração, assim se cria uma identidade “fake”, uma sociedade idealizada, comprometendo o factual.

A construção de um paradoxo – a moderna tradição guarulhense

Texto de Adilson do Nascimento Freire O pesquisador fala sobre a moderna tradição organizada pelos festejos do IV Centenário Guarulhense. Freire verifica que no momento que Guarulhos passava por transformações com a chegada de indústrias, o crescimento da periferia e o estabelecimento dos migrantes. No mesmo instante, os intelectuais da época buscavam as referências do passado, símbolos que uma cidade quatrocentona deveria ostentar.

Folha Metropolitana: a construção de uma identidade na edição comemorativa do aniversário de 416 anos de Guarulhos

Texto de Bruno Leite de Carvalho

A partir da análise do jornal Folha Metropolitana, faz-se uma contextualização da realidade da imprensa guarulhense; suas particularidades editoriais, a proximidade com o poder político em plena ditadura e a ausência de críticas e cobrança ao governo. Na edição de 1976, ocasião do aniversário de 416 anos da cidade, ao traçar um panorama da cidade, bairro a bairro, é possível identificar também a ocultação de regiões históricas menos desenvolvidas, negligenciadas pelo jornal, que são tão importantes historicamente quanto ao centro da cidade.

Em torno da ferrovia e da rodovia: o processo de industrialização de Guarulhos e seu patrimônio industrial (1910-1960)

Texto de Alessandra Silva de Santana, Giorgia Burattini, Saad Medeiros da Silva, Roger Camacho, Barrero Junior, Tuanny Folieni Antunes Lanzellotti  e Wagner Pereira Silva

O texto é fruto de pesquisa realizada pelo Programa de Educação Tutorial (PET) de História entre 2009-2011 dos alunos da Unifesp. O artigo se desdobra entre o desenvolvimento guarulhense a partir do século XX e as conexões políticas e sociais que ultrapassam os limites territoriais de Guarulhos. O período discutido cobre entre 1910 e 1960, passa pela chegada do Trem da Cantareira, a Base Aérea, as rodovias Dutra e Fernão Dias, olarias e as indústrias.

Chagas da exclusão: a internação compulsória no estado de São Paulo – o leprosário do Padre Bento

Texto de Ivan Canoletto Rodrigues

O texto fala sobre os “excluídos da história”, o Estado de São Paulo foi único que adotou a internação compulsória para os hansenianos. Guarulhos foi uma das cidades escolhidas para ter um leprosário. O medo urbano levou o governo a tomar medidas para isolar os doentes para longe dos centros urbanos. Assim, mesmo sem saber como a hanseníase era transmitida, Vargas apoiado pela elite paulista, optou por esconder os enfermos da sociedade. O Sanatório Padre Bento não tinha internos com sinais visíveis da doença e tinha infraestrutura diferenciada dos outros leprosários, era uma verdadeira cidade. A internação compulsória foi descoberta como desnecessária para fins médicos, pois, menos de 10% da população mundial é suscetível ao bacilo.

Os significados da emancipação para a periferia de Guarulhos

Texto de Ellen Tais Santana

A historiadora fala sobre o discurso de progresso disseminado após a emancipação política de Guarulhos, porém, os bairros afastados da capital não tiveram a mesma evolução econômica e estrutural.  A cidade era vendida como ponto estratégico por ser perto da capital, então, poderia escoar as produções com facilidade. O crescimento desordenado trouxe as desigualdades e os cidadãos dos bairros periféricos precisam de voz e força política. Assim, iniciaram as Sociedades Amigos de Bairros, que segundo a autora, tinha ação reivindicatória e buscavam melhorias e não revoluções sociais.

Industrialização, emancipação, patrimônio e identidade

Texto de Elmi El Hage Omar

O historiador cobre o período da década de 1960 até os dias atuais, o texto fala das transformações ocorridas no território guarulhense. O município com aspectos rurais se transformou em metrópole a partir da segunda metade do século XX. O autor aponta saídas para conservação dos patrimônios culturais sem a adoção do turismo rentável, o uso dos prédios tombados é destacado como fonte de preservação da memória e da arquitetura.

 

Sobre os autores:

 

ADILSON NASCIMENTO FREIRE é graduado em História pela PUC-SP em 2007. Tem atuado junto ao patrimônio arquivístico da cidade de Guarulhos, desenvolvendo projetos e eventos relacionados ao tema. Tem artigos publicados em jornais da cidade. Coautor do livro Cecap Guarulhos – História, identidades e memória, atualmente é Gerente administrativo do Arquivo Municipal de Guarulhos.

ALESSANDRA SILVA DE SANTANA é formada em História (Licenciatura e Bacharelado) Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Participou do Programa de Educação Tutorial do curso de História da UNIFESP entre 2010 e 2012, sendo este programa financiado pelo MEC e pela pró-reitoria de graduação da UNIFESP.

AUGUSTO CÉSAR MAURÍCIO BORGES é mestre em História Social pela PUC-SP, onde também se graduou em História em 2005. Pesquisador na área de História do Brasil Contemporâneo. Co-autor do livro Cecap Guarulhos – História, identidades e memórias. É também um dos diretores da AAPAH.

BRUNO LEITE DE CARVALHO é bacharel em Comunicação Social, ênfase em Jornalismo pela Universidade Nove de Julho. Tem artigos e matérias publicadas para os blogs: Cotidiano Guarulhense, Visão Pessoal, Revista Verde e A Cultura de Guarulhos. Cofundador, secretário executivo e assessor de comunicação da AAPAH. Coautor do livro Guia Histórico Cultural de Logradouros: Lugares e Memórias de Guarulhos. Desenvolve pesquisa relacionada à memória e a imagem da cidade de Guarulhos.

ELLEN TAIS SANTANA é pós-graduada em História, Sociedade e Cultura na PUC-SP em 2012 e graduada em História pela Universidade Guarulhos em 2010. Pesquisadora na Área de Brasil Contemporâneo com ênfase em cidades, industrialização, movimentos urbanos e sindicalismo. Possui artigos publicados em sites e jornais.

Elmi El Hage Omar é pós-graduado em História: Política, Cultura e Sociedade pela UnG. Graduação em História também pela UnG, onde participou de monitorias como: Núcleo de Ensino e Pesquisa em História – NEPH (02/2007 a 12/2007); História Antiga I (02/2005 a 06/2005); História da América I 02/2006 a 06/2006 em 2008. Atua como pesquisador e secretário executivo da Associação Amigos do Patrimônio e Arquivo Histórico, do qual foi um dos idealizadores em 2009. Escreveu e organizou os livros: “Guarulhos Tem História – Questões sobre História Natural, Social e Cultural”, “Guarulhos, “Espaço de Muitos Povos”, “Casa da Candinha Ruptura e Metamorfose – de Casa Grande a Centro de História e Memória das Culturas Negras” e “Irmandades da Igreja Nossa Senhora dos Homens em Guarulhos – Identidade, Cultura e Religiosidade”.

GIORGIA BURATTINNI SAAD MEDEIROS DA SILVA é formada em História (Licenciatura e Bacharelado) pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Participou do Programa de Educação Tutorial do curso de História da UNIFESP entre 2011 e 2012, sendo este programa financiado pelo MEC e pela pró-reitoria de graduação da UNIFESP.

Ivan Canoletto Rodrigues graduado no curso de Licenciatura em História pelas Faculdades Integradas de Ciências Humanas, Saúde e Educação de Guarulhos no ano de 2009. Concluiu uma Extensão Universitária na área de História na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), em 2012 e uma Especialização em História, Sociedade e Cultura na mesma instituição, em 2013. Atualmente está cursando o Mestrado em História, tambémna PUC-SP, pesquisando a Internação Coompulsória dos Hansenianos no Estado de São Paulo e o Leprosário do Padre Bento.

ROGER CAMACHO BARRERO JUNIOR é formado em História (Licenciatura e Bacharelado) na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Atualmente é mestrando no Programa de Pós-Graduação em História da UNIFESP, desde 2013. Participou do Programa de Educação Tutorial do curso de História da UNIFESP entre 2009 e 2013, sendo este programa financiado pelo MEC e pela pró-reitoria de graduação da UNIFESP.

TIAGO CAVALCANTE GUERRA é historiador formado pela PUC-SP. Fez especialização em Educação, Ética e Cidadania na USP e mestrado em História Social na PUC-SP. Pesquisador na área de História do Brasil Contemporâneo, com ênfase no estudo de Patrimônio Histórico, Memória e Cidade. Tem artigos publicados em revistas acadêmicas e jornais. Foi organizador do livro Cecap Guarulhos – História, identidades e memórias e coautor do Guia Histórico Cultural de Logradouros: Lugares e Memórias de Guarulhos. Professor da rede municipal de ensino de São Paulo e de Guarulhos. É também coordenador do Núcleo de Patrimônio Histórico da AAPAH.

TUANNY FOLIENI ANTUNES LANZELLOTTI é formada em História (Licenciatura e Bacharelado) Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Participou do Programa de Educação Tutorial do curso de História da UNIFESP entre 2010 e 2012, sendo este programa financiado pelo MEC e pela pró-reitoria de graduação da UNIFESP.

WAGNER PEREIRA SILVA é formado em História (Licenciatura e Bacharelado) Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Participou do Programa de Educação Tutorial do curso de História da UNIFESP entre 2010 e 2012, sendo este programa financiado pelo MEC e pela pró-reitoria de graduação da UNIFESP.

 

Título:   Signos e Significados em Guarulhos: Identidade, urbanização e exclusãoAutores: Augusto Cesar   Maurício Borges e Elmi El Hage Omar (org.).Editora: Navegar

Assunto: História de   Guarulhos, símbolos

Páginas: 200

Ano de edição: 2014

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